A pergunta certa não é “quanto de internet eu tenho”, e sim “quanto de upload eu tenho”. A câmera envia; ela quase não recebe. E o upload é a metade da conexão que ninguém olha na hora de contratar o plano.
A fórmula
O consumo de uma câmera depende de uma coisa só: o bitrate com que ela está configurada, em megabits por segundo (Mbps). A partir dele:
GB por dia = Mbps × 10,8
De onde vem o 10,8: 1 Mbps são 1 milhão de bits por segundo; num dia há 86.400 segundos; 86,4 bilhões de bits são 10,8 bilhões de bytes, ou 10,8 GB.
| Bitrate da câmera | Por dia | Por mês (30 dias) | Cenário típico |
|---|---|---|---|
| 1 Mbps | 10,8 GB | 324 GB | 1080p em H.265, cena calma |
| 2 Mbps | 21,6 GB | 648 GB | 1080p em H.264, configuração de fábrica comum |
| 4 Mbps | 43,2 GB | 1,3 TB | 4 MP em H.264, ou 1080p com bitrate alto |
| 8 Mbps | 86,4 GB | 2,6 TB | 4K, ou várias câmeras somadas |
O número vale tanto para o que sai da sua internet quanto para o que ocupa no disco de quem grava. É a mesma conta.
Upload, não download
Um plano “de 500 mega” costuma entregar bem menos do que isso de envio. O valor de upload está na página do plano, em letra menor, e é o que você deve comparar com a soma dos bitrates das suas câmeras.
Um exemplo comum: quatro câmeras a 2 Mbps são 8 Mbps de envio, o tempo todo, dia e noite. Se o seu upload é de 10 Mbps, sobra pouco para o resto da casa: chamada de vídeo, backup do celular, envio de arquivo. Se é de 5 Mbps, as câmeras não cabem, e o que acontece é vídeo picotado e buraco na gravação.
Antes de contratar câmera na nuvem, faça um teste de velocidade e anote o valor de envio. A conta é: some os bitrates das câmeras e deixe pelo menos 30% de folga.
O que faz o número subir
- Resolução. 4 MP tem o dobro de pixels de 1080p; 4K tem quatro vezes. O bitrate acompanha.
- Quadros por segundo. 30 fps gastam mais que 15, e para segurança 12 a 15 fps bastam em quase toda cena.
- Cena. Movimento e detalhe custam bits. Uma rua movimentada gasta mais que um corredor vazio, com o mesmo bitrate máximo configurado.
- Noite. Com infravermelho ligado, a imagem ganha ruído, e ruído é caro de comprimir. Muitas câmeras gastam mais à noite do que de dia.
- Codec. H.265 gasta 30 a 50% menos que H.264 na mesma qualidade.
- Modo de bitrate. CBR mantém o valor fixo; VBR deixa cair quando a cena está parada. Para gravação contínua, VBR com um teto é o que rende menos consumo sem perder qualidade quando importa.
Como reduzir sem perder a gravação
Na ordem do que mais rende:
- Troque para H.265 no stream principal. É a maior economia com um clique, com a ressalva de que quem assiste o histórico precisa de um computador ou celular com decodificador de H.265 em hardware, o que quase tudo fabricado depois de 2016 tem. Explicamos em H.264 ou H.265 na câmera de segurança.
- Ajuste o bitrate. Para 1080p, cerca de 1,2 Mbps em H.265 e 2 Mbps em H.264 entregam imagem boa para identificar pessoa e placa. Acima de 4 Mbps você está pagando por diferença que não enxerga.
- Baixe os quadros por segundo para 12 a 15. Guarde 25 ou 30 fps só para onde há movimento rápido que importa (caixa, cancela).
- Use o substream no mosaico. Assistir oito câmeras em 1080p ao mesmo tempo consome oito vezes o bitrate; no substream, uma fração.
- Desligue o áudio onde não for usar. Além de gastar, gravar áudio tem implicação na LGPD e é cobrado à parte na maioria dos serviços.
- Mantenha o intervalo de quadro-chave em 1 a 2 segundos. Não muda muito o consumo, mas o “smart codec” que o estica para dezenas de segundos estraga a linha do tempo e a exportação. Desligue.
E o disco?
A mesma conta vale para armazenamento. Uma câmera a 2 Mbps com 30 dias de retenção ocupa 648 GB; com H.265 e 1,2 Mbps, 389 GB. Na nuvem, o disco é problema do provedor, e é por isso que o preço sobe com a retenção: é o custo que varia de verdade. Em quantos dias de gravação eu preciso mostramos como escolher.
Internet móvel e franquia
Em banda larga fixa no Brasil não costuma haver franquia, e o limite é a velocidade de envio. Em 4G e 5G há franquia, e uma câmera sozinha come um plano de 50 GB em pouco mais de dois dias a 2 Mbps. Se a câmera fica num lugar só com internet móvel (sítio, obra, quiosque), a solução é bitrate baixo, H.265, poucos quadros por segundo e, quando existir, gravação só dos trechos com movimento.